Poder, Amor e Limites
- psificando
- 12 de jan.
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Notas para uma consciência menos patriarcal e mais integrativa

Há um equívoco entre as linhas que atravessam nossa história recente: acreditar que o problema do mundo está apenas no mundo.
Nos sistemas políticos, nas estruturas econômicas, nas lideranças, nas guerras.
Essas crenças nos dão um certo alivio do fardo que inconscientemente nos livramos pois se o problema está lá fora, basta combatê-lo, lutar contra.
Mas essas crenças também nos impede de ver algo mais sutil: o quanto o modo patriarcal de existir foi interiorizado em nossa forma de pensar, sentir e nos relacionar.
O patriarcado não é apenas um arranjo social antigo. Ele é um princípio psíquico. Uma organização da consciência baseada no controle, na hierarquia rígida, na expansão baseada na dominação, na dificuldade de reconhecer limites, próprios e alheios. Quando esse princípio governa, o poder deixa de ser apenas uma função e se torna a identidade, de um indivíduo, de uma nação e de toda humanidade. Assim em vez de organizar a vida, passa a dominá-la.
Essa lógica se manifesta tanto nas grandes invasões territoriais quanto nos pequenos gestos cotidianos. Ela aparece quando confundimos limites como ameaças. Quando enxergamos o outro não como um interlocutor, mas como obstáculo a ser atravessado. Quando toda diferença precisa ser vencida, neutralizada ou assimilada.
Estabelecer limites seja talvez uma das tarefas de maior maturidade no que condiz a consciência humana, e que tornou-se algo especialmente difícil. Porque limites exigem presença, negociação, reconhecimento da alteridade*¹. Exigem a capacidade de sustentar a tensão sem recorrer à força a fim de elimina-la. E essa é justamente a habilidade menos desenvolvida em uma cultura treinada para a vitória, não para a relação.
Vencer exige superação, sim, mas sustentar um conflito exige transcender a si mesmo a fim de estabelecer uma ponte entre o Eu o outro e o mundo.
Nossa dificuldade em aceitar transações pacíficas nasce daí. Transacionar implica perder algo para ganhar outra coisa. Implica reconhecer que não se pode tudo, o tempo todo, da forma que se deseja. Para uma psique moldada pelo ideal da expansão infinita, isso soa como fracasso. Para uma consciência que concebe a capacidade de integração, é simplesmente parte da vida. E eu reconheço que eu sofro muito com isso diariamente.
Vivemos, como humanidade, um momento de transição comparável à adolescência. Questionamos as estruturas herdadas, rejeitamos a autoridade tradicional, denunciamos abusos históricos, e tudo isso é necessário. Mas, como todo processo adolescente, corremos o risco de jogar fora não apenas o que nos oprime, mas também o que nos sustenta. A recusa total de regras não nos conduz automaticamente à liberdade; muitas vezes, apenas à repetição inconsciente daquilo que tentávamos superar.
A questão, portanto, não é eliminar o patriarcado como se fosse um inimigo externo, mas diferenciar seus elementos. Há valores associados a ele que continuam úteis: a noção de responsabilidade individual, a capacidade de ação, a estrutura, a clareza de decisão, o compromisso com o que falamos. Esses aspectos são fundamentais para a individuação, para que cada pessoa se torne alguém cada vez mais completo e desenvolvido, capaz de responder pela própria vida e se responsabilizar também por aqueles que nos cercam.
O problema surge quando esses valores se tornam absolutos e perdem o contrapeso do feminino simbólico: a escuta, a circularidade, a inclusão da sensibilidade em suas diversas formas, o reconhecimento da interdependência. Sem essa integração, a força se torna dureza; a clareza - rigidez; e a responsabilidade vira autoexploração.
Como observa Byung-Chul Han, vivemos hoje sob um regime interno de desempenho, no qual o sujeito se cobra incessantemente, acreditando que tudo é possível, e, paradoxalmente, adoecendo por não conseguir sustentar essa promessa. A guerra já não é apenas entre nações ou ideologias; ela acontece dentro. O cansaço, a depressão, a sensação de impotência são sinais de uma consciência que internalizou o tirano e perdeu contato com o amor.
Aqui, o amor não é a manifestação do sentimento romântico, mas como princípio organizador da psique (eros). Amor como aquilo que permite se relacionar sem dissolução. Como aquilo que sustenta o conflito sem transformá-lo imediatamente em dominação
E há quem diz que 'sustentar' é um princípio exclusivamente masculino, aqui podemos notar como ambos os princípios amor e poder são complementares e não opositores.
Nesse ponto, a reflexão de Jean Shinoda Bolen se torna central: cada pessoa, e cada cultura, precisa reconhecer qual princípio governa sua vida interior. O poder ou o amor. Onde o poder reina sozinho, a liberdade e a justiça adoecem. Onde o amor é excluído, a própria potência se torna destrutiva. E infelizmente o sistema atual nos obriga a escolher o poder quase como uma manobra de sobrevivência, que podemos ilustrar como um marido violento deixa sua esposa dependente dele a ponto de sentir que ser servido por ela se torna uma obrigação e ela o serve para sobreviver.
Integrar não significa dissolver diferenças. Significa permitir que elas coexistam sem se anularem. Um mundo menos patriarcal não é um mundo sem estrutura, sem direção ou sem limites. É um mundo em que a estrutura serve à vida, e não o contrário. Em que os limites protegem a relação, em vez de sufocá-la.
No plano coletivo, isso nos ajuda a repensar como participamos da vida comum. Não como massas inconscientemente submetidas, mortos vivos, nem como indivíduos isolados que não suportam o encontro sem embate. Mas como pessoas capazes de alternar entre autonomia e cooperação, decisão e escuta, firmeza e cuidado.
Organizar-se como humanidade talvez exija menos conquista e mais coordenação. Menos expansão e mais enraizamento. Menos necessidade de estar certo e mais disposição para permanecer em diálogo. É através do amor que os elementos se estabilizam. É justamente esse o ponto que inclusive afastou homem e mulher, que não permite mais com que os relacionamentos aconteçam, onde a taxa de divórcio está mais alta do que nunca.
Essa mudança não acontece por decreto nem por revolução externa apenas. Ela começa quando aprendemos a reconhecer o tirano interior sem nos identificarmos com ele. Quando aceitamos que limites não são punições, mas condições da convivência. Quando descobrimos que ceder não é sempre perder, às vezes é criar espaço para algo maior do que o próprio ego.
Uma consciência mais ampla não elimina o conflito. Ela o transforma em campo de aprendizagem. E talvez seja esse o próximo passo da humanidade: sair da lógica da dominação para entrar, lentamente, na arte da integração.
Assim Trump deixa de ser essa figura dominante e passa a ser apenas um fantoche para uma narrativa que acontece dentro de cada ser humano, ele passa a ser algo a ser temido mas um desafio a ser transcendido individualmente, deixa de ser alvo de nossas projeções para se tornar nossa missão individual, dentro de nossa casa.
¹ Alteridade é o conceito que se refere à qualidade ou estado de ser "o outro", envolvendo o reconhecimento e o respeito pelas diferenças individuais, culturais e sociais, compreendendo o outro como alguém singular, com sua própria identidade, valores e subjetividade, e não como uma extensão de si mesmo, sendo fundamental para a ética e a compreensão das relações humanas. Fonte: https://www.educamaisbrasil.com.br/educacao/noticias/o-que-e-alteridade
Livros citados nesse artigo:
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
BOLEN, Jean Shinoda. O anel do poder: A Criança Abandonada, o Pai Autoritário e o Feminino Subjugado. São Paulo: Cultrix, 1992.



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